Sobre a subjetividade do real e o Robin Hood latino

Os meios de comunicação nos fornecem informações contraditórias, o tempo todo. Foi uma bolinha de papel? Uma fita? Mandaram o cara fingir? Tomografia? Foi um ovni? É difícil saber ao certo. Para exemplificar o que estou tentando dizer, vamos utilizar o caso do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que teve seu governo e reputação enaltecidos por um documentário irlandês e difamados por diversas reportagens. Afinal, quem está falando a verdade? Qual informação é real?
 
Para responder a essa pergunta, primeiro é preciso pensar no que é realidade e como as pessoas lidam com ela, já que é difícil defini-la em qualquer ciência. Tomando como base o que aprendi, o real só existe na medida em que temos uma consciência dele. Na verdade, nós compreendemos a realidade como algo que construímos a partir do que compreendemos.

Mas é interessante ver como a gente dá credibilidade cega para os meios de comunicação quando eles falam sobre coisas que não vivemos. A realidade que a mídia nos transmite é automaticamente (e muita vezes de forma inconsciente) admitida como a verdade.

A primeira impressão que tive sobre o Governo de Hugo Chávez foi uma visão negativa transmitida pelas agências de notícia. Logo após, foi lançado o documentário muito interessante chamado “A revolução não será televisionada”, filmado e dirigido pelos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain. O documentário contradiz todas as notícias publicadas sobre o presidente e acusa os meios de comunicação privados de serem desonestos e difamadores. Alguns anos depois, o repórter Diogo Schelp da revista Veja mostrou uma nova visão sobre Chávez, comparando-o com o líder comunista Fidel Castro. E aí? Então, quem é o Hugo Chávez? O novo Robin Hood da América Latina? Um ditador? Um Lula mais feio?

Grande parte da população brasileira não costuma assistir documentários irlandeses, portanto a informação que mais circulou no país foi o lado negro do governante venezuelano, deixando a opinião pública contra ele.

Assim, surgiram comentários como “a Veja é de direita” ou “esses Irlandeses eram amigos do Chávez”, e uma dúvida: o jornalista pode ser parcial? Respondendo minhas próprias indagações, acredito que todos os profissionais de comunicação não devem ser indivíduos imparciais. Eles devem ter uma posição política e ideológica frente a certo dado da realidade. Só que essa posição deve ser fundamentada numa honestidade intelectual, pois isso é o que dá credibilidade a um profissional em qualquer lugar do mundo.
 
Posições antagônicas nem sempre são controversas. Sempre há diversos pontos diferentes em um mesmo fato. O diferente não é necessariamente uma versão falsa. A verdade é que o jornalismo usa a linguagem para representar um fato. Essa é sempre uma reprodução simbólica de um acontecimento, e não o acontecimento em si. A seleção de idéias começa quando montamos uma narrativa. Essa subjetividade inclusa na narrativa com a seleção de idéias, não é prejudicial ao leitor, como costumamos pensar, mas é condição do homem viver na e pela linguagem.

"Si" escrito por venezuelanos que querem a saída de Chavez do poder

"No" escrito por venezuelanos que não querem a saída do presidente

@thaisguin

3 respostas para Sobre a subjetividade do real e o Robin Hood latino

  1. Muito bom o texto, moça! Já te babei no gtalk, mas achei interessante deixar alguma coisa por aqui…parabéns!

  2. Depois tem que fazer um texto sobre honestidade intelectual x parcialidade ideológica, acho que é aí que a gente se perde em nossa subjetividade. Muito bom texto.

  3. Muito bom o texto!
    Muito boa a proposta do Mauro!
    A compreensão da realidade depende da honestidade intelectual e parcialidade ideológia – e como é diferente pra cada um, nos perdemos na subjetividade, e talvez, relatividade….

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